A classe média por Kléber Mendonça Filho

Eu acho essa sequencia do filme "O Som ao Redor" de Kléber Mendonça Filho uma das mais maravilhosas dos últimos tempos no cinema brasileiro. Nessa reunião de condomínio, o cineasta consegue fazer uma crítica social não só a classe média conservadora, mas a toda sociedade brasileira.



"Na narrativa, acompanhamos uma reunião de condomínio do prédio de João e o problema a ser debatido é a demissão do porteiro do prédio que há treze anos presta serviços lá. Uma das moradoras reclama que sua revista Veja vem sendo entregue fora do saquinho plástico; o filho de um dos que está na reunião apresenta em seu computador um pequeno vídeo caseiro na qual se pode ver o porteiro dormindo em serviço. Os condôminos discutem se o porteiro deve ser demitido ou não por justa causa; a maioria parece querer se ver livre do velho homem, desde que isso não lhe custe muito. João parece ser o único a levar em consideração os longos anos de dedicação do porteiro e se posiciona contra a demissão. Entretanto, ele não espera até o fim da discussão, retirando-se antes da votação. Sua opinião é rechaçada e deslegitimada pelos outros condôminos que permanecerão até o fim da reunião e que o apontam, não sem certa razão, como um morador ausente e pouco implicado nas questões que atravessam a vida cotidiana daquele lugar. Além das relações assimétricas entre patrões e empregados, a cena coloca em questão as imagens de vigilância que servem para trazer segurança, mas também para controlar os passos dos que habitam os condomínios, como o porteiro.

Nessa situação, nos deparamos com os valores individualistas que permeiam o imaginário de uma classe média bastante conservadora, que sobrepõe o seu interesse pessoal ao bem-estar do outro, demonstrando que apenas seus próprios pontos de vista merecem consideração, já que são eles quem detêm o capital - afinal são os patrões, os proprietários, os que podem tomar parte da vida comum do condomínio (cabendo ao porteiro apenas obedecer ordens, embora ele próprio não se submeta unicamente ao papel que lhe querem impor, valendo-se da mesma câmera que o vigia para vigiar os que têm poder simbólico).”

REBECA - revista brasileira de estudos de cinema e audiovisual | janeiro-junho 2013. Trecho de “Medo e experiência urbana: breve análise do filme O som ao redor”.

Por Cristiane da Silveira Lima Medo - Doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UFMG. É integrante do Grupo de Pesquisa Poéticas da Experiência e bolsista CAPES. E Milene Migliano - Doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA e membro da Associação Filmes de Quintal.

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